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ESCOLA DO FIM DO MUNDO

Chamamos de Civilização um buquê perfumado e sortido de qualidades que incluem progresso, cultura, florescimento e desenvolvimento, mas nesta coluna trato a Civilização de outro modo, pois eu a vejo com uma Máquina. Ganhei o direito de vê-la assim ao perceber que é assim que ela me vê e conquistei o direito de tratá-la assim ao sentir que é assim que ela me trata. Aos olhos da Máquina eu sou apenas uma engrenagem.

A Máquina é um inimigo terrível, um engenhoso sistema de promessas e prazeres imediatos. O aspecto mais aterrorizante de tudo isso é que a Máquina quer ser a Máquina para sempre. Esta é a única lógica dos processadores, a única energia que move os tentáculos e o único líquido que ferve nas caldeiras.

Todas as forças que se opõem às engrenagens são rapidamente transformadas em mais calor nas fornalhas e mais combustível nos tanques. A Máquina constantemente avalia e reprograma os seus desgastes e instala dispositivos cada vez melhores, mas nada se compara ao seu dispositivo mais perverso: a Máquina não pode ser desligada. Não há um botão “desligar” e por isso não há como impedi-la de moer, triturar, fumegar e controlar tudo.

Quem poderia conceber um projeto tão perfeito?

Nós.

Eu, você e todos os nossos antepassados numa linha de tempo que recua mais de dez mil anos. A Máquina é resultado de nossa eficiência e genialidade. Concebemos e produzimos cuidadosamente todos os sistemas, colocamos neste projeto alma e coração e recrutamos para a tarefa – gentilmente, ardilosamente ou à força – todos ao redor.

Hoje a Máquina conta com mais de seis bilhões de dedicados funcionários empenhados seriamente na manutenção e aperfeiçoamento das engrenagens. Eles vivem apenas para tornar a Máquina melhor, desejam ardentemente que ela funcione com a mais absoluta eficiência e educam os filhos para que contribuam o mais cedo possível para as tarefas de melhorias e conservação.

A história é bem conhecida.

Na região onde hoje se espreme a Turquia, a Síria e a Jordânia (e o que ainda resta do Iraque), surgiram há cerca de dez mil anos as primeiras vilas de agricultores. Antes disso, perambulávamos pelo planeta em bandos de cinqüenta ou sessenta amigos e parentes, vivendo de caça e coleta. Com o surgimento da agricultura tudo isso mudou. Na região chamada de Crescente Fértil, entre os rios Tigre e Eufrates, um novo modelo de vida começou a ser planejado. A domesticação de plantas e animais despertou a idéia de que tudo poderia ser domesticado. Melhor ainda: todos poderiam ser domesticados.

Naquele pedaço de chão na Mesopotâmia a Máquina estabeleceu o seu primeiro centro de atividades e o objetivo era exatamente o mesmo da estrutura atual: controlar tudo para sempre.

A agricultura oferecia – na forma de trigo, cevada, lentilha e ervilha – o primeiro combustível para a Máquina, a primeira fonte de energia necessária para colocar o ciclo em movimento. O início do ciclo se dá com a colheita trancada em armazéns. Esta comida estocada garante exércitos bem nutridos e o excedente dá aos governantes poder de barganha. Com áreas maiores destinadas ao plantio é possível colher e estocar mais comida, o que garante exércitos maiores e o excedente permite somar mais terras para cultivo.

A escala crescente do ciclo exige um número cada vez maior de trabalhadores, mas isso não é problema porque essa mão de obra é obtida à força pelos exércitos dominando aldeias e escravizando prisioneiros de guerra.

Este ciclo está bem documentado nos livros de História onde a Máquina registrou com orgulho a sua saga desde os Sumérios.

Os primeiros campos cultivados e os currais forneceram um modelo de vida que não podia ser desafiado. Ao redor destes centros todas as outras formas de sustento foram dominadas e mesmo os grupos nômades de caçadores e coletores foram massacrados ou transformados em escravos.

Dos canais irrigados da Mesopotâmia brotaram as primeiras injustiças, as primeiras tecnologias criminosas, os primeiros delírios de poder e dominação.

E então este modelo foi se espalhando.

Grupos armados foram ampliando na ponta da lança e no gume da espada as fronteiras deste modo de vida, destruindo qualquer outra filosofia, qualquer outro modo de existir. E ao longo da História demos a tudo isso a nossa aprovação mais sincera. Mais do que isso: continuamos dando a tudo isso a nossa aprovação mais sincera e solenemente renovamos estes votos todos os dias.

As poucas culturas de caça e coleta que ainda restam estão na nossa mira. Mais cedo ou mais tarde terão que ceder a nossos exércitos bem alimentados e armados com fuzis de alta tecnologia. Nossa comida ainda está trancada em armazéns, convivemos com abismos sociais como se fossem formações geológicas naturais e orgulhosamente damos a tudo isso o nome de Civilização.

Eu e você vamos ter que percorrer outro caminho. Temos que procurar uma trilha oculta e nesta aventura vamos precisar de toda a energia disponível para construir. Não haverá nenhuma grama de energia disponível para destruir.

A única saída que vejo é esta trilha oculta e o primeiro passo para encontrar uma rota de fuga é acreditar que ela existe.